Mercedes, Red Bull e os Motores 2026: O que Há por Trás do "Alvoroço" na Nova Era da F1 (Apenas para Especialistas)

(Por M. Rodriguez Otero, Maqueda junto a M. Maurizio, Martinez Bueno, Destefano e a comunidade Ristretter) Ainda nem começou 2026 e a Fórmula 1 já tem sua primeira bomba técnica do ciclo regulamentar: a taxa de compressão do motor de combustão interna (ICE) nas futuras unidades de potência.

(Tiempo de lectura de valor: 4 minutos)

Parece um debate de engenheiros, mas o pano de fundo é político, competitivo e —sobretudo— preventivo: ninguém quer chegar a Melbourne com protestos, suspeitas e manchetes que contaminem a estreia de uma regulamentação que a FIA vende como "a próxima grande era" do esporte.

O Gatilho é Concreto

No regulamento vigente até 2025, a taxa de compressão máxima girava em torno de 18:1. Para 2026, a FIA reduz esse limite para 16:1, em parte para facilitar a homologação de novos atores e conter escaladas tecnológicas (segundo a análise publicada por Ronald Vording, 23 de dezembro de 2025).

O problema: como se mede.

A Norma que Acendeu o Pavio (e a Palavra que Muda Tudo)

O artigo C5.4.3 do regulamento técnico 2026 estabelece:

 

"Nenhum cilindro do motor terá uma taxa de compressão superior a 16,0".

 

 

  • Até aí, cristalino. Mas a mesma passagem acrescenta dois elementos decisivos: o método de medição é detalhado por cada fabricante no documento FIA-F1-DOC-C042, e a verificação é realizada à "temperatura exterior" (ambiente), em condições estáticas, com um procedimento que deve ser aprovado pelo departamento técnico da FIA e incorporado ao dossiê de homologação.

 

  • Segundo o que vem vazando no paddock — e que Vording registra como núcleo da polêmica —, a Mercedes (e por extensão suas equipes clientes) e a Red Bull Powertrains teriam encontrado uma forma de o motor passar o controle estático a 16:1, mas, na temperatura de funcionamento (quando o carro roda), atingir uma taxa mais alta.

 

  • Essa diferença entre "o que o regulamento mede" e "o que ocorre na pista" é o cerne do debate. E lembra, inevitavelmente, a saga das asas flexíveis: componentes que cumpriam no banco de testes ou em verificações estáticas, mas se comportavam de forma diferente sob alta carga aerodinâmica.

Por que Importa Tanto em 2026: Eficiência, Potência e o Novo Reparto Elétrico

A taxa de compressão é, em termos simples, a proporção entre o volume do cilindro quando o pistão está embaixo (máximo) e quando está em cima (mínimo). Quanto mais alta, em geral, melhor eficiência térmica o motor pode alcançar (desde que se controle o fenômeno da detonação/ knock), o que se traduz em duas vantagens potenciais:

 

  1. Mais potência com o mesmo combustível, e/ou

  2. Mesma potência com menos combustível.

 

  • Em 2026 isso se torna ouro porque a F1 se move para uma unidade de potência onde o componente elétrico ganha peso relativo (mais capacidade de implantação elétrica, e sem o MGU-H). Isso obriga a espremer o ICE em eficiência e consistência: a FIA pode ajustar parâmetros de implantação e coleta do sistema elétrico por circuito, mas o motor térmico continuará sendo a "âncora" de entrega sustentada.

  • No paddock fala-se — se esse "16 estático / mais alto em funcionamento" fosse real e se aproximasse de valores como 18:1 — em um ganho da ordem de uns 13 CV (estimativa citada no relatório de Vording). Não é uma cifra menor: em um grid comprimido, pode ser a diferença entre pole e segunda fila, entre se defender ou ser vulnerável na reta.

A Zona Cinzenta: Legalidade por Método ou Legalidade "em Todo Momento"?

Aqui surge o choque entre duas leituras do regulamento.

 

  • Leitura A (formalista): se a norma prescreve um método de medição estático à temperatura ambiente e o motor cumpre ali, então ele está em conformidade.

 

  • Leitura B (integral): o regulamento também contém cláusulas gerais (Vording menciona o artigo 1.5) que estabelecem que o carro deve cumprir plenamente as normas "em todo momento durante um evento". Se o limite é 16:1, então deveria ser 16:1 também quando o motor está a pleno regime, quente e sob carga.



A pergunta operacional é brutal: a FIA pode fiscalizar a taxa de compressão efetiva em condições dinâmicas? Se o regulamento define apenas um controle estático e "à temperatura exterior", a federação fica presa entre dois males: permitir uma potencial brecha ou reescrever a fiscalização a meses da homologação.

A FIA Fala: Continuidade no Curto Prazo, Porta Aberta a Mudanças

Segundo a declaração citada no artigo de Vording, um porta-voz da FIA sustentou:

 

  • "O regulamento define claramente a taxa de compressão máxima e o método para medi-la. Isso implica um teste em condições estáticas e à temperatura ambiente. Este procedimento foi mantido sem alterações..."

  • Mas a mesma FIA deixou uma frase que, em linguagem de paddock, equivale a "não relaxem":

  • "Se necessário, ajustes nas regras ou nos procedimentos de medição podem ser considerados no futuro."

 

Tradução: hoje não mudam o controle, mas não garantem que não o farão se o conflito escalar.

O Relógio Corre: Homologação em 1º de Março e uma Margem Técnica Mínima

Diferente de um aerofólio, um motor não é "remendado" em uma semana. O próprio relatório sublinha a dimensão do problema: as unidades de potência 2026 devem estar homologadas em 1º de março, o que deixa uma margem ínfima para redesenhos de câmara, pistões, materiais ou estratégias térmicas.

A imprensa italiana adicionou combustível: o Corriere dello Sport informou que a Red Bull poderia modificar motores para cumprir 16:1 se a FIA obrigasse, enquanto a Mercedes não poderia (dado sinalizado como especulativo e com relatórios contraditórios em outros veículos italianos, segundo Vording). Seja verdade ou não, ilustra o risco: uma reinterpretação tardia pode congelar vantagens ou penalizar projetos inteiros.

Por que Mercedes e Red Bull? A Pista do Conhecimento e do Talento que Migra

Que se mencionem Mercedes e Red Bull Powertrains "não parece coincidência". O artigo sugere uma hipótese clássica da F1 moderna: soluções que nascem em um lado e depois são replicadas pela mobilidade de pessoal. A Red Bull incorporou perfis provenientes da Mercedes HPP; não se trata de "copiar plantas", mas de algo mais sofisticado: saber o que procurar, quais tolerâncias importam e como industrializar.

Se a FIA não intervier: O ADUO como rede de segurança (mas não como curativo instantâneo)

Se alguns ficarem para trás, entra em jogo o mecanismo ADUO (Oportunidades Adicionais de Desenvolvimento e Atualização). A FIA medirá a potência do ICE em janelas de seis corridas (1–6, 7–12, 13–18). Se um fabricante de motores estiver 2%–4% abaixo do melhor, recebe uma oportunidade extra de atualização; se estiver >4%, recebe duas (conforme resume o relatório). É uma ferramenta para evitar um "motor dominante" por anos, mas não resolve o problema de fundo: uma vantagem inicial pode condicionar títulos antes de o sistema compensar.

O que Vem: Uma Decisão que Define o Tom de Toda a Era 2026

A F1 entra em 2026 vendendo sustentabilidade, eficiência e competição acirrada. Começar essa etapa com um debate sobre uma palavra ("temperatura exterior") seria um golpe de reputação que ninguém quer. Mas o esporte também vive de seu DNA: interpretar regras ao limite.

Agora, a bola está com a FIA: ou sustenta o método e assume o risco de uma brecha técnica, ou ajusta os controles e arrisca tensões com os fabricantes a semanas da homologação.

Em ambos os casos, a mensagem para 2026 já está escrita: o primeiro campeonato pode começar muito antes do primeiro semáforo.

 

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