ChatGPT nas ruas: mais uma campanha de OOH e ativações que afirmam a era do crossing marketing e do Head of Culture

(Por Marcelo Maurizio e Juan Maqueda) Quando a inteligência artificial precisa de publicidade exterior para se humanizar — ativações, rua, promotoras, unidades móveis — o triunfo paradoxal do crossing marketing na era da hipermediação digital.

(Tempo de leitura de alto valor estratégico: 4 minutos)

 

A Contraofensiva Analógica no Universo Digital

Numa ironia que teria fascinado Marshall McLuhan, o ChatGPT — a própria encarnação da revolução digital — desceu da nuvem computacional para habitar o espaço físico mais primitivo do marketing: outdoors, pontos de ônibus e muros urbanos de Manchester. Essa aparente contradição revela uma verdade incômoda que a indústria do marketing digital tentou ocultar por duas décadas: a atenção humana genuína não se captura com algoritmos; conquista-se no território visceral da experiência urbana compartilhada.

 

A campanha “Chat GP” da Havas Lynx não é simplesmente uma resposta criativa à onipresença da OpenAI no cenário publicitário britânico. Ela cristaliza um fenômeno que acadêmicos como Scott Galloway e estrategistas como Byron Sharp teorizaram — mas poucos executaram com tamanha ousadia: o crossing marketing — disciplina híbrida em que antropologia urbana, neurocomunicação e ativismo de marca convergem para produzir disrupções cognitivas no espaço público.

Anatomia de uma Intervenção: quando o OOH vira guerrilha semiótica

A estratégia da Havas Lynx opera em múltiplas camadas de significação simultaneamente. Ao intervir fisicamente nos anúncios do ChatGPT com a mensagem “For trusted medical advice, always chat to your GP” (Para conselhos médicos confiáveis, consulte sempre seu clínico geral), a agência executa o que o semiólogo francês Roland Barthes chamaria de “détournement” — a subversão de mensagens dominantes por meio de sua apropriação e recontextualização.

 

Há, porém, níveis adicionais de sofisticação. O jogo linguístico entre “ChatGPT” e “Chat GP” (general practitioner, o médico de família) não é mero brilho publicitário; é neurolinguagem aplicada. Pesquisas do neurocientista cognitivo Stanislas Dehaene demonstram que nosso cérebro processa homófonos e palavras visualmente semelhantes ativando redes neurais idênticas antes da diferenciação semântica. Essa fração de segundo de confusão cognitiva gera o que psicólogos da atenção chamam de “momento de processamento profundo” — quando o cérebro, forçado a resolver ambiguidade, codifica a informação com maior intensidade na memória de longo prazo.

O relatório Doctored Truths: radiografia de uma crise epistêmica

O estudo que sustenta a campanha, Doctored Truths, da Havas Lynx, expõe dados que deveriam alarmar qualquer profissional de saúde pública: 44% dos britânicos já consultaram inteligências artificiais em busca de aconselhamento médico, enquanto, simultaneamente, 44% desconfiam da credibilidade dessas mesmas ferramentas. Essa paradoxal convivência — uso massivo e desconfiança generalizada — define o que o sociólogo Zygmunt Bauman chamaria de “modernidade líquida sanitária”: navegamos incertezas existenciais com instrumentos que sabemos falhos, porque a alternativa — o vazio informativo — é psicologicamente intolerável.

 

 

Claire Knapp, CEO da Havas Lynx, articula o dilema com precisão cirúrgica: “A IA pode trazer inovação ao setor, mas não substitui o critério médico.” Essa afirmação, aparentemente óbvia, confronta uma tendência cultural perigosa: a democratização da expertise — fenômeno em que a acessibilidade à informação se confunde com a posse de conhecimento especializado.

 

O cardiologista Eric Topol, autor de “Deep Medicine”, documenta como algoritmos de diagnóstico podem superar radiologistas individuais na detecção de anomalias, mas carecem do que ele denomina “inteligência contextual” — a capacidade humana de integrar sintomas com histórias de vida, ansiedades não verbalizadas e matizes culturais que determinam a aderência a tratamentos.

Um chatbot pode listar sintomas de diabetes; um clínico geral entende por que um paciente argentino em Kendall não consegue arcar com a insulina e negocia alternativas viáveis.

 

Out-of-Home: o último bastião da atenção não fragmentada

A escolha do OOH (Out-of-Home advertising) como meio para essa contraofensiva cultural não é arbitrária; é estrategicamente brilhante. Enquanto a publicidade digital enfrenta taxas de bloqueio superiores a 42% (PageFair) e janelas de atenção medidas em milissegundos, o OOH opera no que neurocientistas do marketing chamam de “ambiente de atenção passiva sustentada”.

 

Pesquisas do neurocientista cognitivo Adam Gazzaley revelam que nosso cérebro processa estímulos ambientais urbanos em estado de “alerta relaxado” — receptivo, porém não defensivo. Diferentemente da publicidade digital — percebida como intrusiva e geradora de “fadiga cognitiva” —, o OOH integra-se à paisagem urbana como parte do ecossistema visual que nosso cérebro varre continuamente em busca de padrões, ameaças e oportunidades.

 

Em Manchester, cidade com 550 mil habitantes e mais de 2,8 milhões na área metropolitana, as intervenções da Havas Lynx capturaram algo mais valioso que “impressões”: momentos de reflexão coletiva. Quando centenas aguardam o ônibus sob a mesma mensagem intervencionada, forma-se o que o antropólogo urbano William H. Whyte chamou de “espaços de socialização passiva” — lugares em que, sem interação direta, compartilhamos experiências cognitivas que moldam narrativas culturais comuns.

O nascimento do Head of Culture: arquitetos de significado na era pós-humana (se sua empresa — mesmo tech — ainda não tem um especialista experiente em múltiplas competências off–on, já passou da hora de buscar)

Esta campanha sinaliza a emergência de um novo papel organizacional que transcende o marketing tradicional: o Head of Culture — profissional híbrido que combina antropologia cultural, estratégia de mídia, ativismo de marca e ética tecnológica. Não é community manager nem chief marketing officer; é o arquiteto de narrativas que media entre corporações e consciência coletiva.

 

O Head of Culture entende que, em mercados hiperfragmentados como Miami — onde convivem 150 nacionalidades e falam-se 80 idiomas —, a diferenciação de marca não se obtém por meio de targeting demográfico tradicional, e sim por ressonância cultural profunda. É o que a estrategista de marca Marty Neumeier descreve em “The Brand Gap” como “zag” — quando todos zigam para a direita, você zaga para a esquerda com autenticidade radical.

 

Ao liderar esta campanha, Claire Knapp não atuou como uma CEO tradicional, e sim como uma Head of Culture: identificou uma dissonância cultural (uso massivo de IA médica + desconfiança generalizada), diagnosticou suas implicações para a saúde pública e orquestrou uma resposta que transcende os interesses comerciais imediatos do cliente para servir ao bem-estar coletivo. É o que Philip Kotler denomina “Marketing 4.0” — quando marcas evoluem de extratoras de valor para criadoras de valor social.



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