O Perigo do Sobrecumprimento (Overcommitment): Quando Dizer Sim Demais Trabalha Contra Nós

(Por  Dr. Alejandro Melamed)  “Você não vai acreditar, mas para nossa próxima sessão, teremos que esperar pelo menos seis semanas. Não tenho nem meia hora disponível; estamos sobrecarregados.” Essa foi a ordem de grandeza da ocupação transmitida pelo Diretor de Operações de uma empresa multinacional que eu estava orientando. 

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  • Não fiquei tão surpreso com a sobrecarga deste indivíduo, mas sim com a forma como ele se comunicou: percebi um certo “orgulho” em sua expressão, como se não ter tempo em sua agenda fosse uma conquista em si.

  • Um colega do Marketing comentou algo semelhante: “Entre as viagens, reuniões com agências, apresentações internas e ativações, duvido que possamos continuar com o processo até a próxima temporada.”

  • Cada vez que encontro tais justificativas, concluo que vivemos em um mundo que glorifica a hiperprodutividade, a imediata satisfação e uma “agenda cheia” como símbolos de sucesso e prestígio. O sobrecumprimento se tornou uma armadilha silenciosa que aprisiona um número crescente de profissionais em diversas áreas. Este fenômeno, onipresente nas organizações, será mais explorado nas linhas a seguir.

 

A Era da Hiperexigência  

 

Aceitar muitos projetos, assumir mais responsabilidades do que podemos gerenciar efetivamente ou nos comprometer com múltiplas iniciativas simultaneamente pode parecer estimulante à primeira vista. No entanto, a evidência empírica demonstra que isso leva ao desgaste, à diminuição da qualidade dos resultados e, em casos extremos, ao esgotamento mental.

 

  • O termo “sobrecumprimento” não é novo; existem registros de seu uso desde o século XIX, e aparece em numerosos estudos do século XX. Contudo, seu impacto é sentido hoje com mais força do que nunca.

  • O sobrecumprimento encapsula o fenômeno de assumir mais obrigações do que podem ser cumpridas com os recursos disponíveis: tempo, energia e capacidades. É um conceito profundamente entrelaçado com a cultura contemporânea de hiperexigência. Reconhecê-lo, identificar seus sinais e elaborar estratégias para gerenciá-lo eficazmente é crucial para o desenvolvimento de trajetórias profissionais sustentáveis.

  • Como foi mencionado anteriormente, o sobrecumprimento ocorre quando um indivíduo aceita mais tarefas, projetos ou responsabilidades do que pode realmente sustentar, colocando em risco sua saúde, desempenho ou bem-estar emocional. No entanto, os fatores subjacentes são mais complexos. Não se trata apenas de uma má gestão do tempo, mas de uma interação entre pressões emocionais, sociais e culturais que nos impulsionam a dizer sim, mesmo quando deveríamos dizer não.

  • A psicoterapeuta e autora Israa Nasir, em “Por que estamos cronicamente sobrecumpridos”, afirma que o sobrecumprimento é menos um erro na gestão do tempo e mais um reflexo da pressão cultural que nos leva a trabalhar em excesso, mesmo que os custos para nossa saúde física e mental sejam evidentes.

 

Sobrecumprimento Não é Sobreimplicação  

 

É essencial distinguir esse conceito da noção de sobreimplicação proposta pelo sociólogo francês René Lourau. Para esclarecer os termos:

 

- Compromisso: é a vontade consciente de se envolver e cumprir obrigações, uma decisão profissional saudável e necessária.

- Sobrecumprimento: surge quando essa decisão extrapola seus limites e a pessoa começa a dar mais do que pode sustentar: trabalhar além do necessário, sentir culpa por não atender expectativas ou se sentir indispensável.

- Implicação: não é uma atitude visível, mas a relação estrutural — às vezes inconsciente — que temos com a organização, mesmo em situações em que não participamos ou nos distanciamos.

- Sobreimplicação: é o lado obscuro da implicação e ocorre quando a organização transforma o investimento emocional em uma obrigação, exigindo entusiasmo permanente, demandando que os indivíduos “coloquem-se à disposição” incessantemente e transformando o compromisso em uma espécie de mandato moral.

 

Em resumo, compromisso é a escolha de se envolver, enquanto sobrecumprimento é perder o equilíbrio ao se comprometer demais; a implicação reflete como estamos conectados ao sistema, enquanto a sobreimplicação se refere a quando esse sistema exige mais do que podemos fornecer, não apenas em horas, mas em “alma” também.

 

Compromisso e sobrecumprimento são decisões pessoais, enquanto a implicação e a sobreimplicação dependem da organização com a qual nos conectamos.

 

 

As Causas do Sobrecumprimento  

 

Baseando-se nas ideias de Marc Zao-Sanders, autor do método timeboxing, podemos identificar várias razões principais para o sobrecumprimento:

1. A necessidade de agradar os outros e buscar validação externa: buscamos aprovação em nosso entorno e acreditamos que dizer sim sempre nos fará parecer mais comprometidos e valiosos.

2. O medo da rejeição ou do fracasso: a ansiedade de que uma recusa possa ser interpretada como um sinal de fraqueza ou desinteresse.

3. A comparação constante com os outros: em ambientes hipercompetitivos, a lógica de “se os outros podem, eu também” alimenta decisões irreais.

4. O FOMO (Fear of Missing Out, “medo de perder algo”): a ansiedade de perder oportunidades nos leva a abarcar demais; é uma sobrecarga impulsionada pelo medo de ficar para trás.

5. O desejo de controle: aceitar múltiplas tarefas dá a ilusão de que tudo depende de nós, reforçando uma falsa sensação de poder.

6. A falácia da planejamento: tendemos a subestimar o tempo que as tarefas demandam e a superestimar nossa capacidade. Esse otimismo nos leva a aceitar mais atividades do que é razoável, gerando estresse, atrasos e acúmulo.

7. O síndrome do impostor: quando uma pessoa duvida de suas competências, tende a compensar dizendo “sim” para tudo, a fim de demonstrar valor ou evitar ser “descoberta”. O resultado é uma autoimposição profissional que leva ao esgotamento.

8. Limites difusos ou inexistentes: sem fronteiras claras em termos de tempo, disponibilidade e responsabilidades, os outros ocupam esse espaço. A falta de limites — externos e internos — facilita a expansão do trabalho, deslocando a vida pessoal.

 

Em A Sociedade do Cansaço, o renomado filósofo Byung-Chul Han apontou que, no capitalismo da performance, a violência da repressão externa foi substituída pela autoexploração, levando a uma sociedade de indivíduos esgotados, deprimidos e frustrados. Isso não é resultado de exigências de outros, mas de imposições autoimpostas.

 

Essa nova forma de poder não se baseia em proibições; ao contrário, está enraizada na autoexigência constante por produtividade e na excessiva positividade (manter sempre uma atitude favorável, otimista ou construtiva diante das situações, mesmo nas dificuldades), o que leva os indivíduos a se tornarem seus próprios carrascos e a se sentirem culpados por seu próprio esgotamento.

 

Sinais de Alerta  

 

Detectar o sobrecumprimento a tempo pode evitar grandes problemas. Alguns sinais recorrentes incluem: fadiga constante, descuido de necessidades básicas, ausência de tempo livre, erros frequentes, ansiedade crônica e deterioração nas relações extralaborais.

 

Professores destacados como Avanzi, Zaniboni, Balducci e Fraccaroli demonstraram que o sobrecumprimento está diretamente relacionado ao burnout, e que a insatisfação laboral agrava essa conexão: aqueles que trabalham em contextos onde a motivação se erosiona tendem a se comprometer em demasia como uma tentativa disfuncional de compensar suas frustrações.

 

A paradoxa é clara: quanto mais exaustos nos sentimos, mais nos sobrecarregamos em busca de uma validação que nunca chega. Esse ciclo vicioso resulta em sintomas de exaustão física, despersonalização e perda de sentido no trabalho.

 

As Consequências do Sobrecumprimento  

 

Assim como os sinais são claros, as consequências também o são. Este é o caminho do desgaste à despersonalização. Entre os desdobramentos mais significativos, encontramos:

 

- Problemas de saúde física e mental, que vão desde insônia até depressão.

- Baixa qualidade no trabalho, com um aumento no número de erros, incapacidade de inovar e dificuldades em manter padrões de excelência.

- Perda de satisfação no trabalho e na vida.

- Deterioração nas relações interpessoais.

- Impacto negativo no clima organizacional, gerando equipes esgotadas e alta rotatividade.

 

Várias pesquisas demonstram, além disso, que o sobrecumprimento não apenas se relaciona com o burnout, mas o alimenta de maneira sistemática. O esgotamento inicial conduz a estratégias compensatórias pouco saudáveis, como trabalhar mais horas, postergar o descanso ou aceitar novos projetos, o que aumenta ainda mais o risco de um desgaste maior.

 

A coach Anna Dearmon Kornick, que conduz o popular podcast “It’s About Time” (“A questão é o tempo”), explica de maneira simples: “Ao dizer sim para tudo, dizemos não à nossa saúde, às nossas relações e, em última análise, ao nosso verdadeiro sucesso.”

 

 

O Que Fazer: Estratégias para Romper o Ciclo Vicioso  

 

Superar essa armadilha exige uma mudança profunda em como entendemos o trabalho, o sucesso e os limites pessoais. Algumas estratégias recomendadas por especialistas incluem:

1. Reconhecer e auditar compromissos: listar de forma honesta todas as obrigações atuais e avaliar quais realmente são prioritárias.

2. Aprender a dizer não de maneira inteligente: estabelecer limites não é um ato de egoísmo, mas uma forma de autocuidado estratégico.

3. Priorizar com sentido: nem tudo o que é urgente é importante; diferenciar o essencial do acessório é fundamental.

4. Gestão estratégica de reuniões: discernir quando participar e quando não participar, desafiando a duração das reuniões.

5. Delegar sem culpa: confiar nos outros não diminui nosso valor; pelo contrário, o potencializa.

6. Aplicar técnicas de gestão do tempo: utilizar táticas e ferramentas ajuda a recuperar o foco.

7. Revisar as causas emocionais: muitas vezes nos sobrecarregamos porque evitamos enfrentar inseguranças mais profundas.

8. Utilizar a tecnologia de forma inteligente: abraçar dispositivos e a IA para que se tornem aliados e não inimigos.

9. Promover culturas organizacionais saudáveis: as empresas têm um papel crucial em desestimular a glorificação de agendas sobrecarregadas.

 

Em Resumo  

 

O sobrecumprimento reflete tanto pressões sociais quanto inseguranças pessoais. Dizer “sim” pode abrir portas, mas fazê-lo de forma indiscriminada pode fechá-las. A chave está em reconhecer nossas limitações, não como uma fraqueza, mas como uma forma de autocuidado e inteligência profissional.

 

 

(*) Alejandro Melamed é Doutor em Ciências Econômicas, palestrante internacional e consultor disruptivo. É autor de nove livros, entre eles Liderança + Humana - Histórias de (minha) Vida para nos Inspirar (2025), O Futuro do Trabalho Já Chegou (2022), Tempos para os Corajosos (2020), Desenhe sua Mudança (2019) e O Futuro do Trabalho e o Trabalho do Futuro (2017).

 

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